quarta-feira, 27 de julho de 2011

Está tudo dentro de você...





Até o estar de bem com todas as coisas do céu e da terra. Parece que o mundo está um pouco – ou muito – confuso, mas, apesar dessa confusão, coisas precisam ser feitas, e adivinha por quem?
Você não precisa mais se esquivar... ou prefere que as coisas continuem como estão, carregando pesadamente essa sensação de mal-estar difuso e difundido por todo lado?
Pode começar, buscando clareza no seu coração, questionando as razões não aparentes que fazem você decidir sem pensar ou pensar tanto que, ao final, já nem sabe mais por onde ou porque começou... Se você persistir poderá encontrar um caminho não isento de dificuldades, mas tão firme que lhe ajudará a conquistar a autoconfiança necessária para não desistir...
Pode continuar, interrogando se as suas atitudes são compatíveis com o que você encontrou de genuíno e legítimo no seu coração. Pode examinar as sensações que experimenta em frente as dificuldades, a luta que trava para vencê-las ou para incorporá-las, assimilando até solvê-las... E pode decidir quais ainda se justificam e quais podem ser abandonadas... como uma mala, na estação. E você? Entra no trem!
Segue viagem, agora bem mais leve do que não lhe serve mais. Se num instante de hesitação lembrar da mala, pode pensar que nela ainda restam objetos úteis, mas para outras pessoas que compararão a sua bagagem com o conteúdo que você já pôde dispensar.
E pode seguir decidindo, no dia a dia, calmamente, a estratégia mais alinhada com esse novo-você, de mente aberta e coração clareado pela harmonia de sentir, pensar a falar no mesmo tom, no mesmo ritmo do grande passo que a humanidade está sendo chamada a entoar.
Muitos já estão nessa melodia, outros ainda tardam, mas seu lugar está prestes a ser ocupado por ninguém menos que... você. Não haverá dúvidas em se reconhecer nesse estar-pronto sereníssimo. Mas lembre-se: não é uma chegada, é um exercício.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Memória da Jaci

A surra do menino
Todo o dia era a mesma coisa: ele, o chato provocador, chegava a mudar de caminho para azucrinar. É verdade que o mano, três anos mais moço do que eu, não era nenhum santo. O pequeno, com seis anos e alguma coisa, não era fácil. Briguento e sem noção do tamanho dos outros.
Morávamos no interior do interior. A escola nos custava mais de meia hora de caminhada para ir e outro tanto para voltar. Usávamos uniformes de escola, brancos, engomados, com um laço azul marinho.  Éramos cuidadosos com o uniforme, nem tanto por orgulho de estar estudando no grupo escolar, mas mais por temermos o chinelo que certamente nos pressionaria impiedosamente as nádegas se o sujássemos... Coisas de mãe.
Não éramos ricos, mas isso, naquele tempo, não era importante. Morávamos numa chácara que ao fundo tinha um riacho. O chalé não era grande, mas cabíamos nós todos, o pai, a mãe, o mano mais velho, eu e o mano mais moço. Minha irmã nasceu bem depois...
Meu pai tinha um cavalo, e quando voltava do trabalho, permitia que eu montasse dentro do terreiro cercado. Ele tropeava gado para o matadouro de meu avô. Quando meu avô morreu, meu pai passou a vender enxertos de frutíferas. Ia a cavalo pelos interiores mais interiores ainda, colhia os pedidos e mais tarde distribuía as mudas usando uma carroça comprida, onde as mudas eram amarradas em feixes conforme os pedidos.
Minha mãe era uma mulher bonita, muito trabalhadeira, sempre via o que fazer. Mantinha-nos asseados e nos disciplinava com severidade. Tenho poucas lembranças dos meus irmãos, de brincadeiras juntos, de brigas. Quase nenhuma lembrança. Poucas exceções, tanto que encontro essa agora e antes que fuja, escrevo.
Como dizia, íamos a pé para a escola. O menino provocador era bem mais velho e não estudava na minha sala. Fazia quase o mesmo caminho dizendo coisas à meia voz, perfeitamente audíveis e ofensivas na minha inteligência de nove anos e meio. Bem que ele poderia estar respondendo a provocações de meu mano, às quais eu não assistira. Meu irmão também resmungava. E íamos e vínhamos nesse tom.  Dia após dia. Mas um dia...
Foi na volta para casa. Não adiantava apressar o passo ou relaxar o ritmo. Ele nos perseguia. Palavras de lá, resmungos daqui, e eu quieta. A estrada era lisa e abaulada, recém a patrola havia passado deixando seus característicos sulcos nas laterais, embarrados por uma das muitas chuvas de verão. Lentamente tirei o laço de fita, o guarda-pó branco e os guardei na minha “pasta”, um saco de açúcar “cristal” onde cabiam o caderno, o livro, o lápis e a borracha. Bem dobrados, o uniforme e a fita couberam.
Em um salto, empurrei o grandão. Ele caiu na vala lateral. Antes que se levantasse, pulei sobre ele e esmurrei. Uma, duas, três... Muitas vezes. Perdi a conta. Ele não reagia, pois o meu peso impedia. Não sei quando parei, se cansei ou se me tiraram de cima dele.
Quando chegamos em casa, nenhuma palavra para ninguém a respeito. Almoçamos. No meio da tarde, a mãe, com o menino pela mão, veio conversar. Contou o ocorrido. Minha mãe chamou e eu confirmei.  Vendo o tamanho do menino agredido e o meu tamanho - sempre fui mirradinha -, falou para a mulher que eram coisas de crianças e que não havia o que fazer. Foram embora. O menino nunca mais nos importunou. Dias depois ouvi, por acaso: -“se a mãe dele não tivesse falado, eu não acreditaria...”